E
em um destes dias e trajetos quaisquer deparou-se com questões, quase como
se o orvalho e a manhã os tivessem trazido, ou ainda só fossem passíveis deste tal
“toque” atencioso de consciência naquele estado de espírito, com a luminosidade
apropriada, entre o claro e o escuro; o respondido e o imaginável apenas...
Esta
energia que move a todos, animas e seres humanos, seres vivos em geral. O que
é, de onde vem, afinal? Que parte disto estava presente em si agora? Uma
estranha sensação tomou toda sua consciência e corpo, imagens de
semi-desconhecidos, passando por sua mente. Ela bem sabia que era uma reprise
de memórias, de pessoas que cruzaram seu caminho sem interferir no mesmo, será
que realmente não haviam interferido, ou sua pretensão não permitira que
percebesse tal interferência antes? Na verdade, percebera sim, pois sabia bem
de seu estranho costume de olhar atentamente, até com certo carinho a todos
estes estranhos, cada vez mais conhecidos... Tentar ler-lhes a expressão facial
e corporal. Para onde estariam indo, tinham pressa? Como fora ou seria seu dia?
Fora bom como o por eles esperado? Haveria alguém a lhes esperar? O que aquele
semblante forçadamente neutro poderia dizer-lhe? Estariam felizes, tristes,
preocupados? Será que pensavam em algo, apreciavam o caminho? Reparavam na
paisagem, gostariam dela?
Quão triste não reparar em um trajeto percorrido todos os dias... Seria
ele percorrido todos os dias mesmo? Ao pensar na possibilidade de não haver
alguém para esperar aquelas pessoas, abraçar-lhes e se importar com elas,
sentia vontade de estar lá, para cada uma ao final do dia.
E
se elas não voltassem, se não chegassem onde pretendiam? Se adormecessem
embriagadas, felizes, em meio a lágrimas? Quem se importaria? E deveria ela
importar-se ou estaria sendo invasiva? Talvez devesse mesmo cuidar da própria
vida, mas estas pessoas faziam parte de sua vida! Afinal não é necessário que
exista interação entre elas para tal, poderia ser uma destas a pessoa que
planta as frutas que compra no mercado, ou a mãe daquela atendente sorridente e
simpática.
Eram também assunto dela, e de todos. Sentiu
vontade de gritar à todos os demais: Acordem! Se importem, prestem atenção,
VIVAM!
Era indescritível a sensação de dor causada pela percepção do quão
mecanicamente todos agiam, que ela mesma agira assim por tanto tempo. Sentia-se
finalmente desperta de um transe doentio, podia ver, ouvir e sentir mais
claramente. O cheiro da manhã fresca acalmando-lhe.
“Que se estive dormindo por tanto
tempo e despertei, cada qual deve ter também seu tempo de despertar, e deve
acontecer naturalmente. Certo? Certo!”
Prosseguiu então atenta agora à algo a mais nos rostos: Estaria você
acordando como eu?
Quem seriam afinal os estranhos e
quem seriam os conhecidos?