Muitas vezes criamos dentro de nós
mesmos um lugar para que possamos guardar e trancar todos os nossos medos,
sentimentos, decepções, dúvidas. O que não percebemos é que com o passar do
tempo essa prática atinge proporções inimagináveis, quando nos damos conta
estamos trancados juntamente com estes sentimentos. Podemos até mesmo
acostumar-nos a viver como aves presas dentro de uma gaiola, apenas observando
enquanto o sol brilha forte além das grades, e o céu parece suplicar-nos para
abrir novamente as asas e alçar vôo, então podemos lembrar o quanto era bom
estar do lado de fora, e do quão felizes já fomos. E é neste momento que
começamos a nos debater contra as grades que nós mesmos construímos ao perceber
tamanha ineficácia deste ato, contentamo-nos em esperar por alguém que possa
abrir essa prisão arquitetada por nós mesmos. E a cada mínima sombra nos
encheremos de esperança, acreditando que essa pessoa chegara; muitas chegarão e
tentarão abrir, mas o grande problema está no fato de que não é qualquer um que
pode libertar-nos.
Quando por fim a pessoa chegar,
saberemos então que é ela, e ela saberá também, porque se estabelece quase que
instantânea e imediatamente uma ligação entre nós, somos cativados um pelo
outro, de forma irreversível, e ao perceber tamanho sentimento a gaiola vai
tornando-se cada vez menor, não há como abrigar, aprisionar algo tão imenso
quanto isto. Muitos dos sentimentos que ali estavam por tanto tempo acordam e
agitam-se, começam a crescer e invadir-nos de forma arrebatadora. Sentimos
medo, no momento em que nos damos conta de que esta pessoa sequer precisou
esforçar-se como as demais fizeram, mas ela está destruindo nossa prisão, e
agora isto nos apavora, passamos tanto tempo em segurança, nos contendo, como
seria estar livre? Suportaríamos?
Sabemos de forma incontestável que a
queda virá que esta liberdade nos trará muitos sentimentos e sensações
incríveis, que jamais pensamos que vivenciaríamos, mas sabemos também que
estaremos vulneráveis à dor. É neste ponto em que lutamos para manter a
estrutura sólida e firme de nosso abrigo, mas já não podemos ir contra aquele
sentimento, ele nos envolve de tal forma que é agora parte de nós, as grades
estão tremendo, os sentimentos formando um furacão dentro da pequena gaiola,
arrebatando-nos, até que não possamos mais resistir. As grades são atiradas
para longe como em uma explosão, uma a uma; neste ponto o pavor nos invade
novamente, não sabemos voar, mas não temos alternativa, respiramos fundo,
abrimos nossas asas, fechamos os olhos e saltamos, esta experiência difere para
cada um de nós, pois, há aqueles que voam instintivamente de forma impecável,
outros perdem altura, debatem-se um pouco, mas acabam por conseguir e de tal
modo alcançam aquela sensação, aquela incrível que faz com que percebamos que
agora estamos de fato vivos, e mesmo que encontremos a dor, que tenhamos muitas
quedas nossas asas agora não se contentarão com a imobilidade, nem mesmo nós.