Ela reconhecia
aquele percurso, o fizera por tantas vezes que sequer poderia enumerar. Era o
caminho de casa, não um lar físico, mas afetivo, interno. Sentiu como se
pudesse flutuar sob a estrada e a qualquer instante, sua alma exigiria
descansar os pés descalços no asfalto agora resfriado pela neblina, as luzes a
guiariam ao seu destino, qualquer que fosse; não que precisasse de alguma
iluminação o coração conhecia tão bem o trajeto. E quando deu por si,
encontrava-se em outras estradas, rumando a lugares distintos, conhecidos pelo
corpo, em sua mente, sua alma, seus desejos de percorrer todo o universo. Então
o fez, naquela madrugada. Fechava os olhos e sentia o vento em seu rosto
molhado pelas lágrimas de euforia e tristeza, emoções trazidas pelas lembranças;
do suor pela agitação de voar sobre a auto-estrada, correr e diminuir a
velocidade, absorvendo cada momento de tempo daquela experiência. Por fim
passou por onde desejara um vida toda, parou e apreciou, sentiu o impacto de
toda a jornada, deixou que o cansaço consumisse seu corpo, deitou e amou o céu,
sentiu-se parte das constelações que agora abriam espaço para o sol que vinha
anunciar o dia, aquecê-la, sentiu-se beijada pelas gotas de orvalho, já não
estava deitada no asfalto ou em um dos tantos tortuosos caminhos de chão
daquela noite. Podia sentir a grama, a cor desta a lhe abrigar, estava enfim em
casa, fechou os olhos e em um último suspiro, quis reviver o ocorrido.
Permitiu-se adormecer, caiu num sono calmo e interminável, eternizou a sensação
de liberdade jamais conhecida por outro qualquer.