12.4.11

Tic-tac.

O único som era o tic-tac do relógio de parede, jogada no sofá ela fitava a parede, cada som emitido pelo movimento dos ponteiros parecia lhe trazer algum novo tormento, novo dilema; lembrando repetidas vezes toda a sua vida, parecia constituída exclusivamente por erros, seus ou alheios, erros e mais erros. A luminosidade que insidia no cômodo indicava que o sol se punha, lá longe, invejou-o. Tão bom seria, se pudesse assim como ele nascer e morrer todos os dias, cada dia algo novo, e por vezes sequer aparecer, mas o sol é tão importante, tão visado! Não, nada de atenções, melhor ser outra coisa, ou ser coisa alguma. Ser...era, é. Todos são, todos somos, não importa o que, ou o que fazemos disso, somos algo, ou um conjunto de algos. Esta idéia permaneceu consigo por algum tempo, e a deixou feliz.
Conforme o cômodo foi escurecendo, ficou pequeno, encolheu-se, depois cresceu, parecia ser infinito, procurou por aquela idéia novamente, foi inútil fora embora juntamente com o sol. Misturou-se a sombra, como fazem os camaleões, por brincadeira ou por defesa, não sabia ao certo, nem sobre eles, tão pouco dela. Afinal quem ou o que era ela para sair assim questionando tudo o que encontrava? Que lhe dava tal direito? Tola.
Ping, ping.
Um copo na pia, sob a torneira defeituosa, quase transbordava. Ping, ping.
Pintou na mente a cena, a água misturada ao resto de conhaque, assim também transbordava ela, sentiu-se tão cheia, completa a tal ponto que chegou incomodar-lhe. Afinal se estava tão completa, a ponto de transbordar qual o motivo dessa necessidade de perguntar, imaginar, respirar, continuar?
Num repente passou a ouvir a vida lá fora, sequer a tinha percebido o dia todo. Os carros e suas buzinas, música, pessoas, vozes, podia ouvir até os passos dos transeuntes, mesmo o vento, a troca do semáforo. Sentiu-se invadida, com sua solidão – ah, tão querida solidão!- arrancada de si, queria sua própria confusão, seu barulho interno!
A torneira ainda produzia o som.
Ping, ping, ping.
O relógio parece recobrou a vida, os ponteiros a ruir, os erros a corroer.
Ping.
Tic-tac.
O sol que lhe abandonara, todos que também o fizeram.
Ping.
Tic-tac.
Os camaleões a se camuflar, ela a se perder e perguntar.
Ping.
Tic-tac.
A rua a barulhar.
Ping.
Tic-tac.

Ping, ping, ping.
Tic-tac, tic-tac.
Todas as emoções juntas consumindo-lhe a mente, o juízo, o corpo. Sentia que não era mais ela mesma, sentiu saudade de si, quis voltar, dizer olá! Não podia, quis gritar, chorar, correr; o corpo não obedecia, a mente não cessava, o coração que disparava, mal podia respirar.
A torneira resolveu descansar, o copo cheio, agora com o conteúdo inerte.
Não ouvia mais nada, nem um ruído sequer. Tentou se mover, mal conseguiu parou em frente a pia, fitou o copo, ou parte dele que reluzia mesmo no escuro. Pegou-o, de forma firme e decidida, tornou o conteúdo ralo abaixo. Ergueu-o para si, na altura do olhos, a noite que adentrava pela janela o fez reluzir ainda mais na escuridão da casa. Tão frágil aquele pobre copo, admirou-o de tal modo por tanto tempo que chegou a amá-lo. Baixou o braço que suportava o copo de forma rápida em direção a pia, o barulho do copo a se partir quase a despertou. Uma parte do mesmo ainda em mãos, gentilmente levada até o colo, como num abraço, um pedido de desculpas, subiu lenta e friamente até próximo ao queixo, aquecendo a superfície translúcida com o sangue denso, e quente.
Ping, ping, ping.
O piso pintava-se cor de rubi.
Ping, ping, ping.
Não havia mais nada que pudesse transbordar, e cedo ou tarde findaria.
Ping, ping.
Ping.
Um silêncio perturbador invadiu a casa.
Tic-tac.
O relógio emitiu duas batidas apenas, para dizer adeus.