30.4.11

Cage.

            Muitas vezes criamos dentro de nós mesmos um lugar para que possamos guardar e trancar todos os nossos medos, sentimentos, decepções, dúvidas. O que não percebemos é que com o passar do tempo essa prática atinge proporções inimagináveis, quando nos damos conta estamos trancados juntamente com estes sentimentos. Podemos até mesmo acostumar-nos a viver como aves presas dentro de uma gaiola, apenas observando enquanto o sol brilha forte além das grades, e o céu parece suplicar-nos para abrir novamente as asas e alçar vôo, então podemos lembrar o quanto era bom estar do lado de fora, e do quão felizes já fomos. E é neste momento que começamos a nos debater contra as grades que nós mesmos construímos ao perceber tamanha ineficácia deste ato, contentamo-nos em esperar por alguém que possa abrir essa prisão arquitetada por nós mesmos. E a cada mínima sombra nos encheremos de esperança, acreditando que essa pessoa chegara; muitas chegarão e tentarão abrir, mas o grande problema está no fato de que não é qualquer um que pode libertar-nos.
            Quando por fim a pessoa chegar, saberemos então que é ela, e ela saberá também, porque se estabelece quase que instantânea e imediatamente uma ligação entre nós, somos cativados um pelo outro, de forma irreversível, e ao perceber tamanho sentimento a gaiola vai tornando-se cada vez menor, não há como abrigar, aprisionar algo tão imenso quanto isto. Muitos dos sentimentos que ali estavam por tanto tempo acordam e agitam-se, começam a crescer e invadir-nos de forma arrebatadora. Sentimos medo, no momento em que nos damos conta de que esta pessoa sequer precisou esforçar-se como as demais fizeram, mas ela está destruindo nossa prisão, e agora isto nos apavora, passamos tanto tempo em segurança, nos contendo, como seria estar livre? Suportaríamos?
            Sabemos de forma incontestável que a queda virá que esta liberdade nos trará muitos sentimentos e sensações incríveis, que jamais pensamos que vivenciaríamos, mas sabemos também que estaremos vulneráveis à dor. É neste ponto em que lutamos para manter a estrutura sólida e firme de nosso abrigo, mas já não podemos ir contra aquele sentimento, ele nos envolve de tal forma que é agora parte de nós, as grades estão tremendo, os sentimentos formando um furacão dentro da pequena gaiola, arrebatando-nos, até que não possamos mais resistir. As grades são atiradas para longe como em uma explosão, uma a uma; neste ponto o pavor nos invade novamente, não sabemos voar, mas não temos alternativa, respiramos fundo, abrimos nossas asas, fechamos os olhos e saltamos, esta experiência difere para cada um de nós, pois, há aqueles que voam instintivamente de forma impecável, outros perdem altura, debatem-se um pouco, mas acabam por conseguir e de tal modo alcançam aquela sensação, aquela incrível que faz com que percebamos que agora estamos de fato vivos, e mesmo que encontremos a dor, que tenhamos muitas quedas nossas asas agora não se contentarão com a imobilidade, nem mesmo nós.